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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Malbec

Ele sacode e aperta o tubo de mostarda até sair a última gota. Seus dentes tortos quase brancos destacam-se entre os pêlos de sua barba escura. Abocanhando como um cão faminto aquele cheese bacon sem salada. Pedaços de batata palha e bacon caem na mesa.. Pingos de suor escorrem-lhe pela testa e descem pelas bochechas vermelhas.
São onze horas da manhã e ele já está aqui. Vou andando por entre as mesas entregando os demais pedidos, tentando não errar nenhum, fingindo pra mim mesma que sua presença de nada me afeta; que seus olhos azuis piscina de nada me encantam; que suas pálpebras escuras e olheiras profundas de nada me surpreendem... Que eu não fico toda manhã contando os minutos para vê-lo entrar por aquela porta e dar uma ultima tragada no Malrboro vermelho, antes de jogar no chão e pisoteá-lo apagando. Fico esperando ansiosamente para entregar-lhe o cardápio do dia e tocar sua mão, mesmo já sabendo seu pedido decorado.
- Eu quero um cheese bacon sem salada, com batata palha extra pra agora... Depois me embrulha um pedaço da lembrança desse teu sorriso pra viagem ;)
Mal sabe ele que a maior gorjeta do meu dia são os cinco minutos que leva para engolir aquele sanduíche barato. Em duas ou três mordidas ele leva um pedaço do meu coração. Lambe um a um os dedos de mãos sujas que nem lava, unhas aleatoriamente grandes demais ou roídas além da conta... Limpa na camisa branca de algodão gola em V e desliza os dedos por entre os cabelos lisos e oleosos. O dinheiro contado tirado do bolso da calça desbotada, moedas rolam sobre a mesa... Ele vai embora.
- Espera! Me diz teu nome! - imploro em silêncio.
Mas tudo o que me deixa é um rastro etílico pelo ar misturado com o cheiro amadeirado e forte do seu perfume Malbec.

- Me diz teu nome...

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