Sentidos antes tão sombrios, agora sóbrios...
Queria imergir de volta as águas turvas do delírio.Senti meu cérebro oscilando como um pêndulo. Cabelos voaram de mãos dadas com o vento frio que covardemente se aproveitara da pequena fresta na janela. O calafrio vagabundo da solidão me fazia arrepiar e sorrir sem motivo. Tinha um barulho, um barulho irritantemente incessante de algo pingando. E pingando, e pingando... Podia ser totalmente confundido com o pulsar do meu coração, lento e i r r i t a n t e m e n t e i n c e s s a n t e.
Abri a janela e não sei bem se foi o vento ou o som da realidade vindo das calçadas cinzentas, mas quase voei contra a parede do outro lado do meu quarto. Foi como um choque, eu e a realeza Realidade. Estava diante dos meus olhos e eu me recusara a ver durante semanas.
Tentei chorar, mas meus olhos estavam tão vazios quanto meu peito. Sim, mas era o vazio do meu peito que me enchera de esperança todo este tempo. Esperança boba. Os óculos que corrigiam a minha miopia insana estavam logo ali no criado mudo e eu me negara a usá-los.
Antes estes óculos escuros e opacos que usei todo esse tempo, que a realidade cruel. Agora estava tudo abalado, o meu enorme refúgio opaco estava despedaçado. Isso. Abalado demais, chocado demais, e algo me impedia de querer levantar e colher os cacos que restavam. Acho que porque mais do que em qualquer outro dia, me sentia sóbrio o bastante para notar que só iria me machucar mais pegando esses cacos afiados no chão.
Sabe, eu ainda não via tudo como deveria ver, mas eu sabia o que era. Não que eu não soubesse antes, mas algo tinha me concedido um tipo de passe para um mundo só meu, onde havia apagado essa fase da minha vida... E agora, eu estava prestes a embarcar nela novamente. A escuridão que me privara da dor havia sido arrebentada por qualquer coisa estranha e assustadora que entrava pela janela. E eu a sentia entrando na pele como uma faca afiada. Afiada mesmo. Sem dó. Simplesmente rasgava tudo que tentasse barrá-la. E eu estava disposto a parar de tentar.