{meras coincidências, são apenas meras coincidências}
- Meu coração pulsava tão forte que só conseguia distinguir o som dos meus próprios batimentos cardíacos. Fui abrindo meus olhos pesadamente, vi luzes como de vários refletores me encandeando. Pessoas se manifestaram, suas vozes ecoavam ao meu redor, mas eu simplesmente não entendia nada. Então, meus olhos se fechavam de novo abruptamente e o som das vozes se mergulhava num vazio. Era como se eu não tivesse poder sobre meu corpo. Foi então que senti alguém me tocar, provavelmente algum médico. Abri os olhos de uma vez, eles me observavam. Pessoas estranhas, que eu nunca tinha visto na vida. Uma mulher loira ao meu lado me chamou atenção, ela estava chorando desesperadamente. Eu me lembro dela se inclinar e me beijar na testa, lembro da sensação de alívio que surgiu. Foi como um sinal de que eu podia ir. E eu fui. Só acordei quinze dias depois.
Lívia roeu a unha do polegar um pouco confusa.
- Você não acredita em mim, não é? - Perguntou Lucas, aflito.
- É que... - ela hesitou - sua vida é como um sonho..
- Bom, não diria sonho, mas pesadelo.
- É, dos grandes... - Ela concordou.
Lucas se sentou na velha cadeira de balanço da avó e deu um leve impulso no chão com o pé esquerdo. Retirou uma carteira de Marlboro vermelha do bolso e puxou um cigarro de dentro. - Eu achei que você gostasse de sonhar. - Ele comentou, enquanto tragava o Marlboro tentando acendê-lo.
Lívia continuou olhando sem saber o que dizer.
Ele soltou um pouco de fumaça pelo nariz e apontou para o céu estrelado com o cigarro na mão.
- Ta vendo aquela estrela ali? - Ele perguntou balançando a mão freneticamente em direção ao ponto mais claro do céu.
- Ela é linda. - Lívia sentou-se no chão próximo da entrada da varanda, enquanto olhava fixamente pra citada estrela.
- Você é diferente das outras. - Ele disse, pausando para tragar do cigarro novamente.
- Como assim? Diferente das estrelas? - Ela encarou-o, confusa.
- Não. - Ele apagou o cigarro na madeira da sacada e jogou a guimba para fora, na direção da estrela. - Se você fosse como as outras... - pausou, encarando-a - eu diria que o nome dela era algo idiota como Stacy. Diria mais... Que ela era considerada o espírito de uma antiga Deusa da mitologia com esse mesmo nome e que só aparecia para casais apaixonados.
- Você diz isso pras outras? - Ela riu.
- E funciona! - os dois riram olhando pra estrela. Que também poderia ser um planeta ou um meteoro, ou até uma espaço-nave. - Não consigo mentir pra você. - Ele completou sério.
Ela levantou-se sem olhar pra ele, batendo com as mãos na calça para limpar da poeira do chão.
- Você não acredita? - Ele perguntou.
- Porque você gosta de me confundir? - Perguntou franzindo o cenho.
- Eu te deixo confusa? Eu estou confuso desde a primeira vez que te vi.
- Você? - Ela se assustou. Mas logo sorriu com ar sagaz. - Essa foi pior do que a das estrelas, Lucas. Você nem deve lembrar desse dia!
- Era noite de junho e fazia frio como todas as noites de junho. - Ele olhou para o céu hipnotizado com a lembrança.
- Isso é tudo? Você não lembra nem o lugar ou o dia da semana?
- Não. - Ele não parecia se importar.
- Era um domingo e eu estava saindo do Café Mix. Você estava com a sua camisa salmon, a minha favorita. Parado no meio da chuva com aquela sua cara de bunda, esperando um táxi que até hoje não acredito que viria mesmo.
- E você me ofereceu uma carona!
- Eu nem te conhecia, estava bêbada!
- Era a bêbada mais linda que eu já tinha visto. - comentou olhando-a com um rabo de olho - Adorei suas bochechinhas rosadas e seu sorriso bobo enquanto tentava inventar que sabia em que parte daquela bolsa enorme estava a chave do carro.
- Eu estava toda assanhada e ridícula! E foi mais ridículo ainda quando derrubei tudo no chão. E você ainda ficou só me olhando apanhar tudo e rindo da minha cara, seu cafajeste.
Lucas riu alto.
- E ainda ficou olhando pra minha bunda!
- Eu não estava olhando, sua neurótica. O porteiro do bar morreu de rir de você quando gritou: Pare de olhar pra minha bunda! Parecia que eu ia te molestar! - Ele abriu os olhos assustado.
- E você respondeu: Me dê outra coisa pra olhar! - Os dois riram mais ainda. - Você se aproveitou de uma bêbada inocente! - Ela o acusou.
- Inocente, você? - Ele gargalhou apontando pra ela. Mas logo reparou que ela estava mexendo a perna freneticamente como quando estava com raiva e completou. - Bem que eu quis - riu. - Mas na realidade tive que te levar pra casa, porque você estava bêbada demais para achar seu caminho! E olha que eu podia ter soletrado teu nome naquele joguinho idiota, ou ter me aproveitado da "última oportunidade antes de você namorar", mas não foi bem assim!
- É! Acho que você ficou intimidado com o "cheiro de vodka saindo dos meus poros que dava pra sentir até da esquina"! - ela comentou fazendo sinalzinho de aspas com os dedos.
- Pra mim você tinha cheiro de menta! - ele suspirou sonhador - Eu adoro menta.
- Mas foi você mesmo quem disse que eu fedia a vodka, seu cachorro! - Lívia exclamou, dando-lhe um tapa na cabeça.
- Eu só não queria estragar o momento romântico. - Lucas completou franzindo a testa, indiferente.
- Ah, é! Bastante romântico de sua parte dizer que eu fedia à vodka. - Respondeu irritada.
- Estou falando de agora, sua boba. - Ele sorriu aquele sorriso amarelado de dentes tortos. Era o sorriso de menino, que Lívia tanto adorava. Ela fechou os olhos, ele podia puxá-la agora e lhe dar um beijo, ela não se importava nem um pouco.
Lucas levantou da cadeira fazendo-a balançar e ranger um pouco. Lívia abriu os olhos com o barulho.
- É melhor você ir. - Ele afirmou enquanto se afastava mais dela.
Lucas pegou a bolsa dela que estava sobre a mesa da sala ao lado e empurrou na direção da garota.
- Já sabe onde está a chave do carro? - Ele perguntou sorrindo.
- Sim. - Ela tomou a bolsa das mãos dele pra logo depois seguir em direção a porta da saída do apartamento.
- Ei! - Ele gritou no corredor. - Você lembra que música tocava?
- Música?
- É!
- Não... Tinha música?
- "Let the rain fall, I don't care. I'm yours and suddenly you're mine."
- É! Eu me lembro de te perguntar o que era suddenly. - Ela exclamou. - Como você lembrou isso?
- Acho que até hoje você não entendeu a tradução.
- Por quê?
- Porque ela diz exatamente o que eu sinto desde o momento que te conheci. - Eles se olharam por um tempo, em silêncio.
Lívia sentia que finalmente ele iria ser dela. Ela não se importava se não sabia nada dele, ou se o pouco que sabia era uma enorme mentira. Ele fazia bem pra ela, mesmo sem tentar muito. Ela tinha gostado dele desde o primeiro dia.
Lucas sentiu que finalmente iria seguir seu coração. Dessa vez ambos estavam prontos, ele estava certo disso. Aproximou-se dela, queria beijá-la pela primeira vez naquele exato momento. Seus rostos estavam quase colados, porém um pouco exultantes.
Foi quando ouviram um som. Era alguma das músicas estranhas que Lívia costumava ouvir e por vezes obrigava Lucas a traduzir. Vinha da bolsa dela. Esse toque, especificamente, era o toque do namorado dela.
Ela tirou o celular do bolso, e olhou pra Lucas, dando de ombros.
- Desculpa. - tentou.
- Tudo bem! - Ele falou. Então beijou a testa da amiga e entrou em seu apartamento, fechando a porta atrás de si e encostando-se à mesma. - Não posso te esperar para sempre. - Lucas sussurrou para o nada.
sábado, 28 de março de 2009
O ventilador velho ao pé da cama
e as mesmas lembranças antigas. E o antigo sempre parece pior... Não que o velho ou o antigo sejam assim tão ruins. O ruim é que não existe novo! O passado simplesmente não passa. Os mesmos velhos e antigos motivos pra chorar e sorrir ao mesmo tempo.
Eu odeio essa nostalgia.
Os Postes e Faróis
estou caindo de bêbado
De noite eu sentia o vento na cara. Observava a fumaça do cigarro saindo devagar da minha boca e se dissipando no ar. Tinha me apropriado de uma calçada qualquer no meio do caminho trabalho-casa. Às minhas costas uma porta pequena, um apartamento vagabundo qualquer. O sol estava quase nascendo por trás dos prédios enormes. Alguns passos à frente e eu estaria na praia, vendo aquela bola laranja-amarelada subindo por detrás do verde molhado. Mas a luz era forte demais para meus olhos de trôpego.
Eram cinco horas da manhã e alguém certamente estava louco ouvindo algum tipo de rock espanhol as alturas. Zumbia no meu ouvido como se tivesse entrado uma porra de mosquito. Mas era bom. Era calmo. E não-calmo. Era eu.
Até que você apareceu. A louca do som alto às cinco horas da manhã! Você mesma. E atirou um cara pra rua como quem se desfaz de um saco de lixo.
- E não volte nunca mais! – Gritou a plenos pulmões, cuspindo todo aquele ódio na minha cara de quem não dormiu. De quem não tinha nada a ver. E de quem sinceramente não queria ter deixado o ultimo cigarro cair da boca de susto.
- Porra! – Eu sussurrei com meus botões.
Mas juro que me arrependi. Juro que naquele momento eu me arrepiei, meus dedos vacilaram e meu isqueiro velho e desgastado com a sigla L caiu no chão como uma folha caindo de uma árvore. Bem lento. Porque foi assim, câmera-lenta. Seu rosto foi se contorcendo numa careta em minha direção. Maldita “Porra!”, eu pensei.
- E queeem é tu? – Você disse naquele tonzinho sarcástico que só você sabe fazer.
Eu peguei a “porra” do meu isqueiro e levantei. Cambaleando, mas levantei.
- E eu zei lá! - Eu disse meio tonto.
- Como assim? Cara, essa é a minha calçada! Eu não te conheço e você ta sentado nela!
Levantei o dedo como quem pede licença pra falar e perguntei, cheio da razão:
- Mas... Calzadas num zão pra todo bundo andarrr? - Eu disse e fui enfiando o dedo no seu rosto.
- Sério? Porque você não anda? – Você se afastou e abanou as mãos em direção da rua me expulsando calmamente.
Eu fiquei parado te olhando por alguns segundos e você abanou de novo as mãos. É. Você estava falando sério mesmo. Tentei me levantar. E, claro, que caí de bunda no chão, no mesmo lugar. Foi aí que você veio, com todo aquele nojo estampado na cara, com toda aquela amargura e unhas recém pintadas.
- Eu te ajudo. – você disse me puxando pelas costas.
- Pára! Dãão. Dão preciso da zua ajuda. – Eu respondi tentando empurrar suas mãos.
Só tentando. Porque quando me virei pra falar com você elas já estavam longe, temendo encostar mais um pouco que fosse no bêbado sujo da rua.
Você era assim. Algo que talvez nem quisesse ser. E eu vi nos teus olhos, você me achava repugnante. E tinha medo de acabar como eu... E me mandava pra longe. Mas queria mesmo era me abraçar, chorar no meu ombro e dizer entre soluços: eu amava aquele infeliz! Eu fiquei paralisado. Me apaixonei pela situação. Os objetos flutuaram ao meu redor, ou talvez fosse apenas o mundo girando, você sabe, coisa de bêbado... Você me inspirou como ninguém mais. E eu me apaixonei por você também. Queria correr pra casa, sentar na cama de frente pro criado-mudo e escrever numa daquelas folhas de rascunho: é ela.
Mas eu não corri. Saí andando contra minha vontade e adormeci em outra porta qualquer. Na verdade nem lembro mais do seu endereço... Será que você lembra de mim?
Quando eu estiver caindo de bêbado de novo, me lembre de cair aí.
De noite eu sentia o vento na cara. Observava a fumaça do cigarro saindo devagar da minha boca e se dissipando no ar. Tinha me apropriado de uma calçada qualquer no meio do caminho trabalho-casa. Às minhas costas uma porta pequena, um apartamento vagabundo qualquer. O sol estava quase nascendo por trás dos prédios enormes. Alguns passos à frente e eu estaria na praia, vendo aquela bola laranja-amarelada subindo por detrás do verde molhado. Mas a luz era forte demais para meus olhos de trôpego.
Eram cinco horas da manhã e alguém certamente estava louco ouvindo algum tipo de rock espanhol as alturas. Zumbia no meu ouvido como se tivesse entrado uma porra de mosquito. Mas era bom. Era calmo. E não-calmo. Era eu.
Até que você apareceu. A louca do som alto às cinco horas da manhã! Você mesma. E atirou um cara pra rua como quem se desfaz de um saco de lixo.
- E não volte nunca mais! – Gritou a plenos pulmões, cuspindo todo aquele ódio na minha cara de quem não dormiu. De quem não tinha nada a ver. E de quem sinceramente não queria ter deixado o ultimo cigarro cair da boca de susto.
- Porra! – Eu sussurrei com meus botões.
Mas juro que me arrependi. Juro que naquele momento eu me arrepiei, meus dedos vacilaram e meu isqueiro velho e desgastado com a sigla L caiu no chão como uma folha caindo de uma árvore. Bem lento. Porque foi assim, câmera-lenta. Seu rosto foi se contorcendo numa careta em minha direção. Maldita “Porra!”, eu pensei.
- E queeem é tu? – Você disse naquele tonzinho sarcástico que só você sabe fazer.
Eu peguei a “porra” do meu isqueiro e levantei. Cambaleando, mas levantei.
- E eu zei lá! - Eu disse meio tonto.
- Como assim? Cara, essa é a minha calçada! Eu não te conheço e você ta sentado nela!
Levantei o dedo como quem pede licença pra falar e perguntei, cheio da razão:
- Mas... Calzadas num zão pra todo bundo andarrr? - Eu disse e fui enfiando o dedo no seu rosto.
- Sério? Porque você não anda? – Você se afastou e abanou as mãos em direção da rua me expulsando calmamente.
Eu fiquei parado te olhando por alguns segundos e você abanou de novo as mãos. É. Você estava falando sério mesmo. Tentei me levantar. E, claro, que caí de bunda no chão, no mesmo lugar. Foi aí que você veio, com todo aquele nojo estampado na cara, com toda aquela amargura e unhas recém pintadas.
- Eu te ajudo. – você disse me puxando pelas costas.
- Pára! Dãão. Dão preciso da zua ajuda. – Eu respondi tentando empurrar suas mãos.
Só tentando. Porque quando me virei pra falar com você elas já estavam longe, temendo encostar mais um pouco que fosse no bêbado sujo da rua.
Você era assim. Algo que talvez nem quisesse ser. E eu vi nos teus olhos, você me achava repugnante. E tinha medo de acabar como eu... E me mandava pra longe. Mas queria mesmo era me abraçar, chorar no meu ombro e dizer entre soluços: eu amava aquele infeliz! Eu fiquei paralisado. Me apaixonei pela situação. Os objetos flutuaram ao meu redor, ou talvez fosse apenas o mundo girando, você sabe, coisa de bêbado... Você me inspirou como ninguém mais. E eu me apaixonei por você também. Queria correr pra casa, sentar na cama de frente pro criado-mudo e escrever numa daquelas folhas de rascunho: é ela.
Mas eu não corri. Saí andando contra minha vontade e adormeci em outra porta qualquer. Na verdade nem lembro mais do seu endereço... Será que você lembra de mim?
Quando eu estiver caindo de bêbado de novo, me lembre de cair aí.
terça-feira, 17 de março de 2009
As pessoas se importam demais...
Hoje eu como, durmo. E penso em mim mesma, fazendo o que gosto..
Ou olhando no espelho procurando no rosto alguma espinha idiota pra estourar.
E eu nem sabia que tinha espinhas..
Ah, como é bom ser egoísta pra variar!
E agora? Quem poderá TE defender?
=*
Ou olhando no espelho procurando no rosto alguma espinha idiota pra estourar.
E eu nem sabia que tinha espinhas..
Ah, como é bom ser egoísta pra variar!
E agora? Quem poderá TE defender?
=*
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