ontem me peguei pedindo a Deus, a quem a Senhora sempre fora tão fiel, para que ele te conceda aquele lugar que tanto mereces. Pela sua bondade, pelo amor incondicional a todos, pela pureza, pelos tantos ensinamentos e por todas aquelas qualidades imensuráveis que eu jamais esquecerei.
Vovó, nessa última semana a senhora mencionou tantas vezes a “dor da saudade”, sempre querendo reunir a sua família, sempre. Mas tem tanta gente que só percebe que dói depois que perde pra sempre... E talvez eu seja uma dessas pessoas ignorantes. Dá uma angustia, sabe? Um sufocozinho. Uma vontade de voltar atras, ter de volta um minuto, ou um segundo que seja do seu sorriso contagiante, das suas brincadeiras, do seu carinho...
Quem conheceu sabe. Ninguém nunca teve o que reclamar da Senhora. Era como um anjinho. Apesar de suas peraltices, que acabava sendo só mais uma de suas qualidades. Sua garra, sua força, sua coragem. Uma mulher talentosa, decidida, inteligente, excepcional, a quem sempre tentei tomar como exemplo, e continuarei tentando.
É duro... É muito difícil. A tristeza chega a ser física, Vovó. O pior de tudo é ter consciência que dessa vez não é drama, sabe? Eu não vou mais ver a minha avó! E tudo torna-se tão mais desprezível... Queria tanto saber de ti, se estás bem. Dormi chorando pensando que talvez estivesses só... E lembro bem do quanto a Senhora tinha medo disso. Acho que puxei isso a você, sempre que me perguntavam qual o meu maior medo eu tinha a resposta na ponta da língua: a solidão. Mas agora não tenho mais tanto medo, sabe? Eu sei que em algum lugar a Senhora está me abençoando, me iluminando. Eu sei que em meu coração a Senhora sempre estará, como sempre esteve. Te amo muito, vovó. Sempre te amarei.
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